sexta-feira, 8 de outubro de 2021

ABORDAGEM RESTRITA

Maior parte da imprensa ignora denúncia sobre rachadinha na Assembleia

Descrição para cegos: imagem de uma cédula de cem reais sendo cortada ao meio por tesoura.

por Rubens Nóbrega (observador credenciado)

Não é correto dizer que o ex-deputado federal Jair Bolsonaro inventou e aperfeiçoou sozinho a rachadinha para transformá-la em ‘negócio de pai pra filho’. Baixo Clero até 2018, e por 28 anos na Câmara dos Deputados, o atual presidente da República já foi acusado de ser pioneiro na apropriação do salário de funcionários fantasmas que empregava em seu gabinete. 

Mais do que uma prática, a rachadinha seria praga invencível nos três níveis de parlamento desde o advento da Nova República. Bolsonaro não estaria sozinho nessa, portanto. A apuração de acusações fundamentadas depende, todavia, da disponibilidade e vontade de uns poucos promotores e procuradores de Justiça. Porque a iniciativa de enfrentar e investigar esse tipo de crime é quase uma exclusividade do Ministério Público no Brasil.

Por seu turno, a mídia costuma pegar carona nas investigações do MP sobre rachadinhas. Mas são poucos os jornais, emissoras de rádio e tevê ou blogs, sites e portais jornalísticos da Internet que se arriscam a embarcar nesse carro. A imprensa paraibana que o diga. A recente notícia de que o Ministério Público do Estado começou a investigar semelhante esquema na Assembleia Legislativa mereceu atenção – em única edição ou postagem – de apenas dois espaços da blogosfera pessoense.

Quem primeiro abordou o assunto foi o Conversa Política de Angélica Nunes e Laerte Cerqueira, colunistas do Jornal da Paraíba e da TV Cabo Branco. Às 8h24 do 30 de setembro do ano da graça de 2021, publicaram ‘MP investiga suposto esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa da Paraíba’. Desde então, nada de atualização, repique ou desdobramento do caso. Que envolve nada menos que uma ex-deputada e quatro deputados estaduais, entre eles o presidente da Casa, Adriano Galdino, além de cinco assessores parlamentares!

A segunda publicação sobre a denunciada rachadinha paraibana aconteceu quarta-feira (6). Feita por Daniel Lustosa, do Jornal da Manhã da Jovem Pan João Pessoa. Ele publicou às 9h30 no Portal T5 (TV Tambaú) que a ‘Investigação de rachadinha na ALPB está em análise de documentos pelo MPPB’. Nada trouxe de novo nesse front aberto em 26 de fevereiro deste ano, data de portaria da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público que instaurou inquérito para apurar denúncia contra os parlamentares. 

Significa que há sete meses a imprensa paraibana como um todo ou em boa parte deveria estar acompanhando – e noticiando ou comentando – a investigação. Afinal, além da conexão com os bombásticos exemplos nacionais, a pretensa rachadinha estadual é tema e pauta de inegável interesse público. Principalmente do público que paga todas as contas públicas, aí incluídos os elevados salários e as gordas verbas de gabinete dos deputados estaduais. 

***

Detalhe relevante 1: nos conformes éticos do jornalismo, o Conversa Política procurou os investigados para que eles se manifestassem sobre os fatos, mas apenas dois parlamentares se pronunciaram.

Detalhe relevante 2: Daniel Lustosa informa que tentou, mas não obteve resposta da Assessoria de Imprensa da Assembleia (que assessoraria apenas o deputado-presidente e não os demais citados na matéria).

Detalhe relevante 3: pesquisa deste observador sobre a ‘rachadinha’ na ALPB encontrou apenas as duas publicações mencionadas, que podem ser conferidas integralmente nos links a seguir reproduzidos.

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