quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Machismo, cavilação e implicância com “presidenta” - já basta, colegas

Descrição para cegos: imagem composta pela folha de rosto da 1ª edição de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e trecho final do cap. 80 da obra, onde se lê, no português da época: “(...) natural, não violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e não tive animo de olhar para Virgília; senti por cima da pagina o olhar dela, que me pedia tambem a mesma cousa, e disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretario, era resolver as cousas de um modo administrativo.” A expressão “uma presidenta” foi destacada em azul claro pela editoria do blog. 

Por Carmélio Reynaldo (observador credenciado)

Agora que a diversidade parece ser prática e pauta em todos os canais de comunicação, que tal dar fim à cavilosa implicância com Dilma Rousseff e incorporar de uma vez a palavra “presidenta” ao vocabulário do jornalismo? E com a devida benção de Machado de Assis que já a usava, mesmo o Brasil ainda sendo uma monarquia.

Vamos recordar um pouco, afinal, jornalismo sempre precisa de contextualização.

Por ocasião da sua posse na presidência em 2011, Dilma Rousseff usou a palavra “Presidenta” para a função que assumia. A má vontade da imprensa com a vencedora da eleição e o machismo brasileiro se alvoroçaram tentando rotulá-la com a burrice que demonstravam – por preconceito e por misoginia.

Não se levou em conta que a palavra integrava o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – não faltou gente chamando atenção para isso – e que seu desuso fosse consequência de um passado de alijamento das mulheres dos cargos de chefia. O que interessava era desqualificar Dilma e, por isso, a imprensa brasileira ainda insiste em usar “presidente” mesmo quando se refere a mulher, inclusive a ela, que hoje ocupa a presidência do Banco dos Brics, uma instituição de fomento ao desenvolvimento multilateral mantida por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Para fazer chacota à presidenta, teve jornalista renomado que até tentou aplicar conceitos das ciências exatas às regras gramaticais, usando argumentos ridículos como “se o feminino de presidente é presidenta, então o de estudante é estudanta. Sobre a inclusão da palavra no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que é legalmente o parâmetro do nosso léxico, houve quem questionasse se a inclusão ocorrera por subserviência da Academia Brasileira de Letras, instituição responsável por sua organização. Mas a inclusão é antiga. Talvez seja da idade da Academia Brasileira de Letras (nascida em 1897), tendo entre seus fundadores Machado de Assis, que foi o primeiro presidente.

Se foi Machado de Assis ou Brás Cubas quem primeiro usou a palavra “presidenta”, não sei dizer. Mas ela está lá nas “Memórias Póstumas” desse aspirante a deputado do império, publicadas em forma de folhetim pela diligente mão de Machado. Consta na última frase do capítulo 80 e, embora ausente em algumas edições, está na primeira edição dessa obra em livro (1881, Typographia Nacional), conforme se constata no fac-símile em PDF do exemplar integrante do acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP.

Portanto, colegas, chega de birra. Vocês erraram. Já passa da hora de incluir “presidenta” ao vocabulário do jornalismo e de reconhecer que as redações caíram na própria armadilha ao tentar desqualificar, já no momento inicial do mandato, a primeira mulher que chegou à presidência do país.

Mesmo que, pelo desuso do feminino, “presidente” tenha alcançado o status de substantivo de dois gêneros, em tempos de linguagem inclusiva, ainda usar apenas a forma masculina é pura cavilação.

4 comentários:

  1. Excelente! paplausos e aplausos!

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  2. Esclarecimentos muito bem fundamentados! Presidenta, sim!

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  3. Com todo respeito, se, conforme o texto, "Presidenta" é forma feminina, logicamente, a forma masculina seria "Presidento".
    Presidente, Comandante, Gerente... continuam comuns aos dois gêneros.

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    1. Seu raciocínio seria correto de gramática fosse uma ciência exata, o que não é o caso. Se assim fosse, não teríamos verbos irregulares, defectivos e os plurais seriam apenas com o acréscimo do S no final da palavra.

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